quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ampliação do projeto põe mais ônibus-biblioteca na cidade

Fonte: Prefeitura de São Paulo

O programa, que procura difundir a leitura, prioriza os locais em que inexistem equipamentos públicos. Alguns roteiros foram sugeridos pela própria população. Desde o dia 27, a cidade 28 pontos diferentes da Capital recebem o serviço.

A ampliação do projeto ônibus-biblioteca estendeu o acesso das pessoas a livros, periódicos e gibis dos sete bairros anteriormente atendidos para 28 pontos diferentes da cidade desde o dia 27 de outubro. O programa, que procura difundir a leitura, prioriza os locais em que inexistem equipamentos públicos. Alguns roteiros foram sugeridos pela própria população.

O novo projeto visual caracterizou o veículo com a cor amarela e estampou no vidro traseiro a fotografia do primeiro ônibus a prestar esse tipo de serviço na cidade. A primeira unidade móvel de informação foi implantada por Mário de Andrade, escritor e primeiro diretor do Departamento de Cultura da Cidade de São Paulo. Em funcionamento desde 1936, com interrupções provocados por acontecimentos pontuais, o projeto é mantido pela Secretaria Municipal de Cultura.

O único veículo (roteiro nº 1) que cumpria o itinerário semanal disponível apresentou um problema mecânico no segundo semestre do ano passado e teve de ser trocado. Com a doação de veículos feita pela Secretaria Municipal dos Transportes (SPTrans), foi possível ampliar o serviço para quatro unidades que funcionam cada dia da semana em um lugar distinto. Cada unidade móvel contém um acervo médio de 4 mil exemplares, entre livros, gibis e periódicos.

Além da caracterização dos novos veículos, foi contratada a Liga Brasileira de Editoras (Libre) para fornecer motoristas e uma programação mensal de encontro com autores.

Confira os quatro itinerários dos ônibus-biblioteca:

Roteiro nº 1 (já em funcionamento)

Segunda-feira: avenida Belmira Marin, 3.865 – Grajaú

Terça-feira: rua Barros Penteado,403 – Jardim Iguatemi

Quarta-feira: praça José Rochel, s/nº - Vila São José

Quinta-feira: rua Luís J. Freire, s/nº - Vila Penteado (atrás do sacolão)

Sexta-feira: avenida Baronesa de Muritiba, 750 – Parque São Rafael

Sábado: avenida Cupecê, 5.950 – Jardim Miriam

Domingo: avenida dos Metalúrgicos, esquina com a avenida Leandro – Cidade Tiradentes

Roteiro nº 2

Segunda-feira: avenida Tibúrcio de Souza, s/nº - Itaim Paulista

Terça-feira: praça Ermídia (rua Serra da Juruoca, esquina com rua Dr. Almiro dos Reis) - São Miguel

Quarta-feira: avenida Kamaki Aoki, s/nº - Jardim Helena

Quinta-feira: rua Antônio Lázaro, s/nº - São Mateus

Sexta-feira: rua Joaquim Meira de Siqueira, s/nº - Parque do Carmo

Sábado: avenida das Alamandas, s/nº (E.E Professor Milton Cruzeiro) - Ponte Rasa

Domingo: rua Zélia Frias Street, esquina com rua Bento Teixeira - Cidade Líder

Roteiro nº 3

Segunda-feira: estrada de M´Boi Mirim, altura do nº 4250 - Jardim Ângela

Terça-feira: praça Santa Amélia, s/nº - Jardim das Oliveiras - Jardim São Luís

Quarta-feira: rua José Maria Pinto Zilli, s/nº - Jardim Eunice - Vila Andrade

Quinta-feira: estrada de Itapecerica, esquina com avenida Elias Maas - Capão Redondo

Sexta-feira: praça Batista Botelho, final da avenida Nossa Senhora do Outeiro - Cidade Dutra

Sábado: praça Luís da C. Moreira próxima da rua Salvador Rodrigues Negrão - Cidade Ademar

Domingo: rua Rafael Correia Sampaio – Jardim Palmares - Pedreira

Roteiro nº 4

Segunda-feira: rua Francisco Franco Machado, s/nº - Vila Medeiros

Terça-feira: rua do Inverno, s/nº - Brasilândia

Quarta-feira: rua Ushikchi Kamiya, altura do nº 1.700 - Tremembé

Quinta-feira: avenida José Brito de Freitas, 800 - Casa Verde

Sexta-feira: rua Júlio Dantas, s/nº - Vila Dionísia - Cachoeirinha

Sábado: avenida Alfredo Ribeiro de Castro, s/nº - Cangaíba

Domingo: praça Alcindo Rocha Campos – altura do nº 1.300 da rua Nossa Senhora do Sabará - Campo Grande

Informações ao público: Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas. Telefone: 3675-8096. Horário de atendimento de todos os roteiros: 9h30 às 15h.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O homem que ama os livros

Fonte: Brasilia em Dia

Aos 94 anos de idade, o bibliófilo José Mindlin tem uma verdadeira devoção pelos livros, que começou aos 13 anos, quando leu o primeiro, Discours sur l´Histoire universelle, de Jacques Bénigne Bossuet, editado em 1740. Depois disso, não largou mais os livros. Lê-los, e também colecioná-los, chegando a ter um acervo de nada menos que 20 mil títulos, com um total de 45 mil volumes, ele explica de uma forma simples: “Trata-se de uma compulsão patológica, tanto a aquisição como a leitura”.

O homem que ama os livros, filho de pais russos, que imigraram para o Brasil no começo do século passado, também teve uma vida empresarial ativa, fundador da Metal Leve, fabricante de autopeças. Advogado, ele até dá a pista de como ter essa compulsão patológica pelos livros: “Primeiro se começa com as edições comuns. Depois vem o interesse pelo livro bonito, com ilustrações e bem diagramado. A próxima é a busca das primeiras edições de um determinado título. Passa-se, então, a procurar exemplares autografados. A última etapa é a consciência da raridade. E aí você está definitivamente perdido”.

Empenhado em democratizar o acesso ao livro, José Mindlin, que é membro da Academia Brasileira de Letras, acha que o melhor caminho para que isso aconteça é aumentar o número de bibliotecas públicas, que deveriam funcionar à noite e em fins de semana.

Mecenas, ele dá um exemplo da dimensão do seu caráter, doando todo o seu acervo à Universidade de São Paulo (USP).

- Como foi a aproximação do senhor com os livros?

- Eu cresci em um ambiente cultural, de modo que desde a infância eu tive contato com os livros. Não houve um momento determinante. Em casa, quando eu era menino, havia uma biblioteca ocupando uma parede da sala e eu ficava extasiado diante dos livros, mesmo antes de aprender a ler. Até o dia em que eu peguei um livro e comecei a manusear páginas e a murmurar como se estivesse lendo textos. O meu pai, percebendo tudo aquilo, chegou perto e perguntou o que eu estava fazendo. Respondi-lhe, então, que estava lendo. Perplexo, ele comentou: “Mas você ainda não aprendeu a ler!”. Fiquei desapontado, mas jamais esqueci essa observação do meu pai. Houve uma atração pelo livro desde a minha infância...

- Qual era esse livro que estava “lendo”?

- Era um livro infantil, Saudade, do Tales de Andrade, que na Escola Americana recomendavam que a gente lesse. Foi um dos primeiros livros que eu li.

- E depois que foi alfabetizado, como ficou sua relação com os livros?

- Aos 13 anos descobri os sebos, onde encontrava preciosidades. Ia a todos em São Paulo, revirando as prateleiras, passava horas e mais horas, com a paciência de garimpeiro. Recordo-me que a primeira pepita que encontrei, na forma de livro, em 1927, foi uma preciosidade, sem dúvida nenhuma. Tratava-se de uma edição portuguesa do discurso sobre a história universal, de Bossuet, impresso em Coimbra, em 1740. Com a idade que eu tinha naquela época, era mesmo uma preciosidade, embora, na verdade, não fosse uma edição importante da forma que eu a considerava.

- Onde era que o senhor mais garimpava?

- Percorria sempre os livreiros da Praça da Sé, mas, mesmo adolescente, percebi um detalhe entre eles, muito curioso...

- Qual era?

- Um mantinha distância do outro, levavam muito a sério a concorrência, sem qualquer comunicação. O resultado disso eu constatei a partir do momento em que me deparei com a seguinte realidade: um livro de cinco mil réis, para citar apenas um exemplo, custava em outro sebo 50 mil réis. O que eu fiz? Comprava o de cinco mil réis e o vendia ao concorrente por 50 mil réis. Não recebia em dinheiro, mas recebia créditos para adquirir muitos livros. Durante dois anos eu lancei mão desse recurso, porque eles acabaram percebendo a esperteza daquele garoto que amava tanto os livros.

- Mas qual foi o primeiro livro que o empolgou?

- História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador.

- Estudar francês na infância ajudou em sua formação literária?

- Sim, não tenho a menor dúvida, até porque o francês passou a ser a minha segunda língua. Comecei pela literatura infantil, no gênero Tico-Tico, mas, logo, logo, já lia a Condessa de Ségur.

- Deu para ler todos os livros que desejou?

- Eu costumo afirmar que gostaria de viver 300 anos, porque poderia ler de 25 a 30 mil livros. Mas leio, sempre, cada vez mais de forma voraz. Não tem hora nem lugar para ler. Carrego sempre um livro debaixo do braço. Para enfrentar tanto engarrafamento no trânsito de São Paulo, fico lendo no carro.

- A impossibilidade de viver 300 anos para ler tantos livros o frustra?

- Não, depois refleti muito e cheguei à conclusão de que muitos livros seriam lançados, sem que houvesse tempo para lê-los.

- Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, já era sua leitura na adolescência?

- Li Dom Quixote já na fase adulta. Foi uma leitura apaixonante, eu li primeiro em tradução francesa e depois li em espanhol. Trata-se de um livro fascinante, que instiga a imaginação ao ponto de ter a impressão de estar participando de tudo aquilo que ele escreve.

- Prevalece o equilíbrio entre a realidade e a fantasia?

- Sim, sem dúvida nenhuma!... Tanto existe que, mesmo quando aparece a fantasia, a gente tem a sensação de estar vivendo aquele episódio imaginado por Cervantes. É o maior livro de uma narrativa de grande familiaridade para o leitor.

- O Sancho Pança é visto assim como caricato, mas é um personagem que cresce no desenrolar do romance. O senhor concorda?

- Ah, não, ele não é nada caricato! Ele tem um bom senso de humor, mas é bastante realista na narrativa. São todos os episódios, não digo em ambos, mas boa parte são episódios perfeitamente plausíveis e possíveis. Outros são de pura imaginação, mas é uma narrativa que apaixona.

- Quando Sancho Pança renuncia ao cargo de governador da ilha Baratária, pedem um relatório e ele responde afirmando que não ia fazê-lo, porque entrara pobre e saía pobre. O que o senhor acha disso?

- Eu acho que cargos, como o de Sancho Pança, são seus. Hoje, em boa parte dos casos, não poderia dizer isso. Infelizmente, a seriedade não é uma característica hoje em dia de muitas atividades. Mas existem, sim, os governadores honestos, que podem prestar suas contas direitinho.

- Além de Miguel de Cervantes, quais são os seus escritores preferidos?

- Marcel Proust, Machado de Assis e Guimarães Rosa.

- O senhor tinha entre os escritores famosos alguns amigos, como o Carlos Drummond de Andrade, que lhe fez uma dedicatória muito carinhosa. Como foi?

- Referia-se a uma menção que fiz a seu respeito: “Caro Mindlin, você me trouxe este testemunho da minha mocidade, mas por que não me trouxe a própria mocidade?”.

- Por que o senhor defende a tese de que os bons livros deveriam ser proibidos, porque existem os ótimos?

- O que aconteceu foi que um dia falei isso, mas é uma utopia, porque simplesmente não há como determinar quais são os livros que são bons, regulares e excelentes. Qualquer livro vale a pena ser lido, porque a leitura, sem dúvida nenhuma, é um dos melhores prazeres da vida. O importante é ler o primeiro e ir em frente. Com o tempo, naturalmente, surge o controle de qualidade na leitura. A conseqüência disso é ficar cada vez mais seletivo, porque o tempo é essencial, prevalecendo, e sempre, a liberdade intelectual.

- Como o senhor vê o Brasil de hoje?

- O Brasil de hoje não é distante da crise mundial que se está atravessando, em que fatores morais passaram para um plano secundário. Mas não dá para generalizar. Eu acho que em todas as épocas, inclusive a de hoje, existem o bem e o mal.

- Mas parece que o mal está ganhando essa luta.

- Não. Nem vai ganhar. É uma coisa acidental. Eu sou um otimista incorrigível em relação à humanidade.

- Existem casos e mais casos, um certo “denuncismo”. Juscelino Kubitschek, por exemplo, foi acusado de ser dono da sétima fortuna do mundo, mas morreu pobre...

- Eu continuo acreditando no julgamento da história, que irá fazer justiça ao Juscelino Kubitschek, que foi um grande estadista. Quando ele estava exilado, em Nova York e Paris, mantivemos alguns encontros. Ele levava uma vida muito modesta, se hospedava em hotéis simples.

- O que o senhor destacaria, hoje, sobre o Juscelino Kubitschek?

- Ele foi o primeiro presidente brasileiro que procurou estabelecer um diálogo com os Estados Unidos, de igual para igual. Estou convencido, vale acrescentar, de que ocorreu um desencontro histórico entre o Brasil e os Estados Unidos, quando Dwight Eisenhower foi presidente. Depois, John Kennedy assumiu a Casa Branca, e o que avalio hoje é que, se fosse na época do Juscelino, muita coisa teria sido diferente...

- Juscelino saiu, Jânio o sucedeu, acabou renunciando, abrindo espaço para João Goulart. Veio a revolução dos generais. Houve participação dos empresários no golpe?

- Toda generalização é perigosa. Ocorreu naquela época, nos primeiros anos da década de 60, que alguns defendiam apenas os seus interesses, mas também aqueles que tinham espírito público muito sólido. Eu, pessoalmente, lamentei o fato de o Jango não ter concluído o seu governo. Aconteceu com ele o que ocorreu com Salvador Allende. Se o Allende tivesse concluído o seu governo, o Chile teria voltado à normalidade, sem grandes dificuldades. Com Jango, também ocorreria o mesmo. O seu problema foi oscilar entre a direita e a esquerda, em um jogo político muito perigoso, até perder completamente o controle.

- O senhor tem um conceito sobre o que vem a ser o poder?

- Acredito que algumas pessoas procuram ocupar cargos políticos com idealismo, determinação em realizar projetos, sem se preocupar com o poder. O Delfim Netto, que é um homem muito inteligente, afirmou uma vez que poder era uma coisa que precisava querer e gostar. Ou seja, que precisava pensar em poder desde a hora que acordasse até a hora de adormecer. Espirituoso, até concluía com uma observação: “Eu durmo muito pouco!”

- Qual a interpretação que o senhor faz disso?

- O Delfim Netto nunca escondeu o desejo do poder, que eu não sei se foi coisa da vida inteira ou se surgiu na hora em que entrou na política. Quando era professor universitário, nada indicava que ele tivesse essa ambição. O poder é uma coisa perigosa. Não é por acaso que se afirma que o poder corrompe, e que o poder absoluto corrompe ainda mais. Platão, por exemplo, já afirmava que o governo ideal era o do déspota esclarecido. O que é uma coisa impossível de acontecer, porque o esclarecido desaparece rapidamente e fica o déspota.

- Durante o regime militar, o senhor jamais foi submisso aos generais. Isso lhe causou problemas, como empresário?

- Eu tinha minhas opiniões e as mantinha politicamente de forma clara. Na empresa, procurava manter uma postura de independência com relação ao governo, com uma certa distância, sem pedir favores ou assumir dívidas. Todas as minhas opiniões políticas eu manifestava fora da empresa, como um cidadão comum. Isso não significa que não mantivesse bom relacionamento com algumas personagens do governo militar.

- Cite um exemplo.

- O Mário Henrique Simonsen, o Delfim Netto, eles foram meus interlocutores freqüentes, mas jamais, em nenhuma ocasião, tratei de qualquer assunto da minha empresa com eles. Sempre preservei a minha independência pessoal e a defesa das minhas idéias. Quando me manifestava politicamente, não atacava pessoas. Criticava apenas idéias.

- Em momentos de crise, como o atual, o que o senhor aconselha?

- O mais indicado é ter otimismo, manter a cabeça fria. Quando não existem problemas, atuais ou previsíveis, isso não é necessário. Preocupação excessiva não ajuda. Na realidade, são muito poucos os problemas que não se consegue resolver. E quando isso acontece, o jeito é conviver com eles, com uma certeza: o mundo não acaba tão cedo!

- Como o senhor vê, hoje, a globalização?

- A globalização revelou um desses jogos de aprendiz de feiticeiro: a gente sabe como começa, mas não sabe como acaba. Mas já dá para perceber que os países ricos pregando, e conseguindo, a abertura dos países emergentes, também pregam a abertura de seus próprios mercados, mas conservam todas as prerrogativas protecionistas.

- O senhor, que já viu tanta coisa, crises, guerras, como analisa o atual momento? O mundo vai sair disso?

– É claro que vai! A história do mundo tem milhares de anos em que houve períodos de crises e de grandes problemas, e ocorreram períodos de florescimento e de desenvolvimento material e espiritual, também. Primeiro, até que é uma coisa muito boa, e pode ser aproveitada e curtida.

- Por que as pessoas, hoje, são estressadas, deprimidas?

– Infelizmente, existem problemas materiais que afligem a todos nós e, às vezes, não dependem das próprias pessoas, mas da sociedade. Há tanta coisa boa no mundo que pode ser curtida que as pessoas têm que procurá-las quando enfrentam contrariedades, frustrações. Eu, em relação à contrariedade, tenho uma reação constante de que mesmo que esteja acontecendo uma coisa desagradável, poderia ser pior. Pensando nisso, a importância da contrariedade diminui muito.

- A sociedade moderna não é muito competitiva?

– Eu acredito na sociedade de hoje como eu acredito na de outras épocas, também, existem as coisas boas e as coisas más. E a pessoa tem que saber dosar as frustrações.

- O senhor contou, no início da entrevista, que desde cedo devorava livros. Hoje, com a Internet, existe a possibilidade de a literatura perder importância?

- Eu tenho, através de netos e alguns bisnetos, contato com a infância e a mocidade, constatando muito interesse por leitura, também. Não só pelo desenvolvimento tecnológico. Agora, tem que existir um exemplo em casa de leitura, para estimular as crianças. Não há regras para isso.

- Muita gente alega que não tem tempo para a literatura...

- Quem afirma não ter tempo, na realidade não procurou ler. É muito mais fácil não ler e afirmar que não teve tempo. Mas essas pessoas não sabem o que estão perdendo, porque a leitura é uma fonte de prazer permanente.

- O livro no Brasil é muito caro. Isso é um fator desestimulante?

- Ele é caro, custa muito dinheiro para uma grande maioria da população. É caro para produzir e para distribuir. Não existe exploração de um modo geral na questão da venda de livros. Agora, a solução seria abrir mais bibliotecas públicas, porque ler não devia depender de possuir um livro. Nos Estados Unidos, um país altamente desenvolvido, as bibliotecas são em grande quantidade e uma biblioteca particular não é regra. Uma boa biblioteca particular é exceção, em qualquer cidadezinha há uma boa biblioteca pública. Nós estamos longe disso, mas eu acho que é esse o objetivo que tem que ser procurado alcançar.

- O governo poderia ter a iniciativa de incentivar a leitura, reduzindo impostos das editoras, das gráficas?

- A impressão de livros tem uma série de sanções. Eu não conheço isso em detalhes, mas eu acho que há um incentivo. Agora, o grande incentivo é a formação de bibliotecas com bons bibliotecários que orientem os leitores, que mostrem o que há de interessante nos livros. Tudo é uma questão de formação de um hábito que preencha a biblioteca que, aliás, deveria existir também de modo generalizado nas escolas.

- Depois de montar uma biblioteca com 20 mil títulos, com 45 mil volumes, a qual conclusão o senhor chega?

- Cada vez mais estou convencido de uma coisa, muito importante. Que a gente passa, e os livros ficam...

Semana de Biblioteconomia - Fainc 2008








Ontem, 23 de outubro de 2008, deu-se continuidade a mais uma semana de Biblioteconomia na Fainc – Faculdade Integradas Coração de Jesus – com a ilustre presença de ex alunos em depoimentos.
Marco Antonio de Souza e Cleber dos Santo Carvalho roubaram a cena da apresentação.contando um pouco da saga de suas carreiras desde as duras épocas de faculdade e como se firmaram na profissão e ganharam reconhecimento.
É isto aí galera, parabéns!!!! Me orgulho de fazer parte da vida de vocês.
Como eu sempre digo, nós bibliotecários vamos dominar o mundo, seja ele de papel ou digital.
Aos colegas de profissão um conselho: que sempre encarem os trabalhos como desafios e sempre busque fazer o melhor, pois o mercado prima por bons profissionais e os bons sempre terão o reconhecimento merecido.
Sorte à todos, e nunca esqueçam que:
“O segredo não é correr atrás das borboletas....É cuidar do jardim para que elas venham até você” (Mário Quintana).

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Biblioteca e a Educação

A Biblioteca e a Educação

Charlene Lemos, Gisele Aguiar, Nilson Vieira e Tatiane Souza*

Em um país onde a educação e a cultura são deixadas em segundo plano, reconhecer e fortalecer a presença da biblioteca na formação educacional é um desafio a ser enfrentado
Quem lê mais escreve melhor
Em 2001, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEPE), com base nos resultados das provas de 300 mil estudantes aplicadas pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), fez um estudo que revela um desempenho quase 20% superior, principalmente em Língua Portuguesa, nos colégios em que mais de 75% dos alunos manipulam e lêem regularmente as obras das estantes.
As bibliotecas escolares, públicas e universitárias contribuem parta o estímulo à leitura e devem trabalhar em conjunto com as instituições de ensino e as comunidades. Mas qual é o papel de cada biblioteca nessa história? "Que tal folhear essas páginas e descobrir?"
Biblioteca escolar
A atuação da biblioteca escolar na vida da criança é de extrema importância para o incentivo à leitura e o desenvolvimento dos futuros leitores. É ali que se inicia o contato com os livros, a base para a futura autonomia do leitor no uso e manuseio da biblioteca. Se esse trabalho educativo, no momento do ensino básico, não for bem feito, afastará o aluno da biblioteca, pois sem saber usá-la, sem um tipo de orientação de como utilizá-la, o estudante sentirá insegurança e a sensação de que sua necessidade não foi atendida.
Apesar da conscientização de que a biblioteca é um instrumento relevante na escola para a formação de leitores, temos observado uma atuação contrária das autoridades públicas, dirigentes das escolas, professores e bibliotecários. Professores, atuam isoladamente, no incentivo à leitura, bem como, os bibliotecários em suas respectivas bibliotecas. Ações isoladas não levarão os alunos a buscarem o livro por prazer ou a terem paixão pela leitura; pelo contrário, os alunos irão até a biblioteca para o cumprimento de suas tarefas escolares ou simplesmente para a cópia de verbetes em enciclopédias.
Jonas Ribeiro, escritor e contador de histórias, define a biblioteca escolar como "o cérebro da escola, a memória, o lugar de produzir conhecimento, reflexão e discussão", porém, essa atuação dinâmica, viva, da biblioteca, só poderá ser desenvolvida de forma articulada com a ação do professor. Professor e bibliotecário devem transformar a biblioteca no centro de atividades da escola afim de que a permanência nesse espaço seja um prazer para o aluno e não uma obrigação.
Escolas sem bibliotecas, ausência de bibliotecários nas escolas, professores impondo suas opiniões sem estimular a reflexão do aluno, tudo isso contribui para a má formação dos alunos e precisa ser mudado. A conscientização de que a biblioteca é um pólo de incentivo à leitura não basta, o lamento de que os alunos não freqüentam a biblioteca e que ela é esquecida dentro da escola não basta. Todas essas questões já foram discutidas e ainda o são. Agora é o momento de desenvolver ações concretas e direcionadas em favor do livro, da biblioteca, da leitura e do aluno, tais como "Hora do Conto", "Competição Literária", saraus e debates. Ações integradas que farão das instuições biblioteca-escola, de fato, parceiras.
Uma vida destinada ao livro e à Biblioteca Maria Helena T. C. Barros nasceu em uma família que sempre valorizou a cultura em suas mais diversas formas de expressão. A ida a museus e exposições sempre estava na agenda da família. Mas, foi o acesso aos livros que marcou a vida de Maria Helena; incentivada a ler em casa encontrou na Biblioteca Escolar o lugar perfeito para dar asas a imaginação e complementar as pesquisas escolares. Ela recorda a presença marcante da bibliotecária, na Escola Infantil onde estudava, que realizava atividades de ação cultural em uma época em que isso ainda não era conhecido.
Já adolescente, prestes a entrar na carreira universitária, decidiu estudar pedagogia e ser professora, mas ao perder o prazo estabelecido para inscrições no vestibular foi informada que poderia fazer o curso superior de Biblioteconomia. Foi nesta ocasião que viu o destino ligando-a novamente ao mundo dos livros e das Bibliotecas. Graduou-se e durante muitos anos realizou um brilhante trabalho como Bibliotecária escolar despertando o gosto pela leitura a muitas crianças, adolescentes e adultos.
Mas não parou por aí, dedicando-se também ao ensino da Biblioteconomia na Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP e aprofundou-se no estudo da Biblioteca Escolar (sua importância, problemas, políticas etc.), tendo livros e artigos publicados sobre o tema, além de ganhar muitos prêmios de reconhecimento por todo trabalho realizado. Hoje já aposentada não consegue se imaginar longe dos livros, da Biblioteca e da sala de aula e vê como fundamental a presença da Biblioteca Escolar na sua infância, assim como a influência da Bibliotecária para todo o destino de sua vida.
Biblioteca pública
A biblioteca tal como conhecemos hoje, surge na revolução industrial onde ocorre a mudança de biblioteca/museu para biblioteca/serviço, oferecida ao público. Buscar a história da biblioteca ou o registro da informação na sociedade é buscar a história do homem, pois estas estão juntas. A biblioteca mais antiga de que se tem notícia é a de Nínive no Iraque (antiga Mesopotâmia), que pertencia ao Rei Assurbanpal, onde os arqueólogos encontraram cerca de 22 mil placas de argila, considerados os primeiros suportes de escrita. A mais célebre biblioteca construída na antiguidade foi a de Alexandria, erguida no século IV aC., que chegou a ter 700 mil volumes antes de ser destruída por um incêndio.
O modelo de biblioteca, tal como conhecemos hoje, surgiu na Revolução Industrial quando ocorreu a mudança de conceito de biblioteca/museu para biblioteca/serviço. Segundo a estudiosa Divina Aparecida da Silva, podemos definir a Biblioteca Pública como o espaço que tem por finalidade “atender às necessidades de estudo, consulta e recreação de determinada comunidade, independente de classe social, cor, religião ou profissão”.
Para o pesquisador Antônio Miranda, a missão das bibliotecas é “promover o idioma nacional por meio do incentivo à leitura; fornecer publicações oficiais – com informações voltadas aos deveres e direitos, bem como oferecer oportunidades, mecanismos nos quais o indivíduo pode desenvolver o progresso próprio, da família e do país; fornecer livros e outros materiais para estudantes e profissionais; apoiar campanhas de alfabetização; ser a memória cultural, histórica e cientifica da nação; além de fornecer serviços de informação técnica e comercial”.
Diversas atividades são realizadas nestes espaços, desde a hora do conto (para o publico infanto-juvenil), a organização de campeonatos de xadrez, apresentação de vídeo até mostras de cinema, iniciativas estas de profissionais antenados para as possibilidades de disseminar a informação.
Biblioteca universitária
É papel primordial da biblioteca universitária oferecer o suporte ao ensino, a pesquisa e a extensão São nas universidades que a problemática da falta de acesso e hábito da leitura se enfatiza, pois o mesmo aluno que atravessou as etapas anteriores desinteressado pelos livros é inserido num contexto em que a exigência sistemática de leituras e pesquisas se torna imprescindível. Apesar de possuír boas noções de internet, ele não sabe sequer encontrar um livro na biblioteca.
Para Luís Milanesi, bibliotecário e professor de 3º grau, muito mais grave do que isso é perceber, em muitas universidades, que os alunos continuam não sendo incentivados a buscar ou complementar seus conhecimentos na biblioteca, simplesmente porque o docente não o estimula. O professor continua a ser o centro das atenções e o seu discurso, prioritário, mantendo o aluno passivo diante do conhecimento.
Cabe aos professores conhecerem as obras clássicas e se informarem sobre as novidades para indicar e estimular os alunos a lê-las e, assim, confrontar conhecimentos e opiniões em sala de aula. E cabe à biblioteca universitária ter um acervo rico e diversificado, contemplando os assuntos dos cursos presentes na faculdade onde ela está inserida.
É papel primordial da biblioteca universitária oferecer o suporte ao ensino, à pesquisa e à extensão com a precisão e a rapidez que o meio acadêmico exige. Os bibliotecários - além de serem responsáveis pelo armazenamento, seleção, organização e disponibilização das informações – devem auxiliar os alunos a desenvolverem suas pesquisas. Sendo a pesquisa científica fundamental para o desenvolvimento de um país, a universidade e a biblioteca se tornam peças-chave neste processo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Um traficante de livros

Fonte: Revista Cult               

Base aérea do Galeão, impiedoso Sol carioca         

Pontualmente, às 12h30, o avião da FAB está pronto e aguarda a partida. O ministro Juca Ferreira, com terno e camisa azuis, embarca no pequeno Learjet. É seu segundo compromisso do dia. O primeiro ocorreu há pouco, em solo carioca. O destino é Recife, cidade cantada nos versos de Cabral e Bandeira, a qual continua a reverberar ecos literários, seja em seu centro histórico, seja na periferia. O motivo principal da viagem é uma matéria veiculada em O Globo, a qual despertou verdadeiro "alumbramento" em Juca. Ricardo Gomes Ferraz, ou simplesmente Cacau, é morador da comunidade do Bode, uma das mais violentas da periferia do Recife. Em uma humilde palafita, Cacau construiu uma biblioteca intitulada Os guardiões, a qual é aberta a todos os moradores.

- Quando li, disse: vou lá! Comenta o ministro, em tom de entusiasmo.

- Ministro não pode ficar só no gabinete.

Após assumir o ministério, a agenda de Juca Ferreira tornou-se repleta de compromissos. Há os pesares. O filho Vicente, de 8 anos, é quem mais critica o "corre-corre" do pai. Como previsto, o avião aterrissa na base aérea do Recife, localizada junto ao aeroporto dos Guararapes.

A vontade de ser útil

Da base para a comunidade do Bode. À entrada, a rua estreita e policiais à espreita. São dezenas deles. Empunhando revólveres e fuzis, aguardam a chegada do ministro. Crianças gritam e acenam para a ilustre visita, incomum por ali. Até chegar à palafita, o caminho é tortuoso. O chão é coberto de pequenas conchas, algumas delas levadas pela água suja e fétida que cruza as casas. Ao chegar à palafita, Juca encontra, além de Cacau, dezenas de jornalistas e mais policiamento. Polícia esta responsável pela morte de um amigo de Cacau, na véspera. Dentro da palafita, centenas de livros empilhados espalham-se pelos cantos. Há desde literatura infantil a clássicos, como Macbet, de Shakespeare. Todo o acervo fica à disposição dos moradores. Crianças folheiam os livros, alheias ao frenesi dos fotógrafos, em busca da foto da capa. Entregam ao ministro alguns volumes para fazer uma entrega simbólica a Cacau, talvez na tentativa de finalmente conseguirem a foto da capa.        

- Fica um pouquinho de lado, por favor. Uma imagem a mais. - pede um fotógrafo

- Uma imagem a mais pode modificar o sentido. Eu não vim aqui dar livros e sim para reconhecer a grandeza do trabalho dele. - afirma, constrangido, Juca Ferreira.

Ao ser questionado sobre como surgiu a idéia de criar a biblioteca, Cacau diz que a principal motivação foi: "a vontade de ser útil". Dura é a realidade da comunidade do Bode. O crack é um dos vilões. Muitos daqueles que não entram para o universo da drogas vivem da pesca.

- A gente vive de pesca. Às vezes tem, às vezes não dá. A gente quer que melhore. - comenta a moradora Maria do Carmo.

Cacau já foi vítima das drogas. Hoje, recuperado, assiste ao triste destino de amigos, como aquele que morreu no dia anterior. Quanto à biblioteca, está decidido a não retirá-la da comunidade do Bode.

- Sou um traficante de livros. Minha biblioteca tem que conviver com a dor da minha comunidade.